terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As Artes Marciais e o estágio Final



Durante muito tempo minha resposta foi sempre à mesma quando me perguntavam sobre qual o estagio final de um praticante de arte marcial. Como seria esse estágio final?

Tentei explicar que o objetivo era aprender a lutar para não precisar lutar.

Alguns entenderam, outros não. Pensei numa nova maneira de explicar e me lembrei de um conto chinês que foi espalhado no boca a boca e na internet estava sendo divulgado, em minha opinião, de maneira errada. Sem a essência principal.

Pois na internet contam que o Galo venceu lutas e mais lutas quando chegou ao estagio final e de acordo com o que aprendi não foi bem assim. Então resolvi contar a historia do galo do jeito que aprendi para que o praticante de arte marcial saiba como pode ser o verdadeiro estagio final.



Há muitos séculos atrás na China havia um imperador aficionado por briga de galos. No desejo de ter um galo que nunca perdesse uma luta requisitou os serviços do maior mestre de artes marciais de que se tinha notícia para treina-lo.

Ao fim de seis meses de preparação, o imperador, chamou o mestre e perguntou-lhe se o galo já estava pronto. O mestre relatou que o galo tinha feito progressos notáveis: já havia atingido a fase adulta, estava no tamanho ideal, era muito rápido e forte; dominava inúmeras técnicas de combate, mas estava extremamente agressivo, arrogante, e achava que era invencível. Ainda não estava pronto.

Para corrigir essa falha, pediu mais um tempo para trabalhar o emocional da ave.

Passado o tempo, o imperador chamou novamente o mestre e, ouviu-o pedir mais um tempo para trabalhar o galo. O galo estava mais forte e mais rápido; dominava com perfeição todas as técnicas de combate, a ponto de já estar saindo das formas tradicionais de luta e criando novas técnicas; perdera o ódio pelos adversários, o que lhe permitia manter a concentração na luta em si; possuía muita coragem, mas ainda ficava tenso durante o combate, pois receava pelo resultado final.

Decorrido o tempo dado, o imperador voltou a chamar o mestre, e ouviu que o galo já estava pronto: já dominava todas as técnicas de combate, sendo capaz de criar outras dependendo da situação que se lhe apresentasse; enfrentava qualquer adversário sem ódio; tinha desenvolvido enorme poder de concentração e uma autoconfiança impressionante, a ponto de poder antever os primeiros movimentos do adversário e o desfecho da luta.

Para a luta de estreia trouxeram os melhores galos do reino. No entanto quando viram o galo do imperador chegar, ao notarem que o mesmo exalava uma áurea de confiança que não sabiam explicar, ficaram paralisados de medo e fugiram para a floresta.

O Galo havia chegado num estágio em que não havia mais adversários com quem lutar.

Texto textaculos adaptado de um conto chinês

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

entre ônibus e bagagens, um microcosmo da cidade

O LIVRO AMARELO DO TERMINAL
de Vanessa Barbara
Editora: Cosac Naify, 2008, 254 págs.


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A correria da cidade, o amontoado de ônibus, um mundo gente que vai e vem, carrega bagagens, perde coisas tão inusitadas quanto uma dentadura, um banco de Kombi ou um braço mecânico. A rodoviária do Tietê, a segunda maior do mundo, reproduz a cidade de São Paulo. E é tão grandiosa quanto ela: abriga 61 empresas de ônibus com 331 linhas que atendem 611 localidades em todos os estados brasileiros, com exceção do Amazonas e do Acre,e mais quatro países sul-americanos (Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile).

Por isso, conhecer esse terminal rodoviário é conhecer aspectos essenciais da vida da cidade e dos seus habitantes, dos migrantes que chegam cheios de esperança para se tornarem “paulistanos” ou dos que partem desiludidos com a cidade. “O Livro Amarelo do Terminal”, da jornalista Vanessa Barbara, desvenda não apenas os segredos desse terminal (não todos, porque o faturamento dos banheiros ainda é um dado guardado a sete chaves pelo administradores) mas as histórias dessa gente que chega, parte, espera.

Vanessa divide seu livro em 22 capítulos nos quais mostra a história do prédio inaugurado em 9 de maio de 1982, na avenida Cruzeiro do Sul, junto á estação Tietê do metrô; os segredos da administração, a vida de quem trabalha lá, dos motoristas e atendentes do balcão de informações; das responsáveis pela seção de achados e perdidos; e das pessoas que passam por lá.

O que impressiona, no primeiro momento, é a grandeza. Vanessa detalha o prédio, formado por dois terminais distintos (o terminal de embarque e o terminal de desembarque) mais os dois blocos de serviços localizados no andar superior.

Mas, essa descrição ganha vida quando Vanessa começa a mostrar as pessoas que movimentam o terminal. Ela passeia pelos terminais de embarque e desembarque e pelos dois blocos de serviço, anotando com sensibilidade histórias diversas. Mostra o trabalho das atendentes do balcão de informações, de coque, sombra nos olhos e lencinho no pescoço, prontas para dizer como chegar em qualquer lugar. Elas não falam inglês nem espanhol, mas atendem os estrangeiros na certeza de que, de uma forma ou de outra, acabam se entendendo. Mostra também o trabalho dos motoristas, das faxineiras dos banheiros com seu faturamento secreto, dos seguranças que tem ordens de impedir fotos ou reportagens desautorizadas dentro do terminal, carregadores, vendedores da loja de malas, pedintes e até do dono da voz dos auto-falantes da rodoviária.

As histórias do usuários são esclarecedoras. São lojistas do interior de São Paulo e de outros estados, que vêm a São Paulo fazer compras na 25 de março, gente que chega e
procura por parentes que deveriam buscá-los, jovens surfistas que dormem sobre suas pranchas enquanto esperam, estrangeiros que querem passear em Ilhabela. Histórias de
uma grande cidade, com gente que joga chicletes no chão e papel higiênico fora do lixo, pisa em salgadinhos, carrega malas e sacos pretos enormes, compara esnobe as condições do terminal com as condições oferecidas pelos terminais europeus. Tudo anotado e colocado no livro com um texto sensível, esclarecedor e coadjuvado por uma edição inovadora, com recortes de jornais, manchetes das revistas de fofocas expostas nas bancas de jornais do terminal, frases dos livros de auto-ajuda à venda etc. Enfim… um microcosmo da cidade.
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